ENSAIO PARA A SOLIDÃO

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É triste, mas é verdade: muitos de nós chegarão ao fim da vida sozinhos ou rastejando por amor e atenção. O verdadeiro mal na vida do gay não é a AIDS. A solidão é a companhia indesejada por você e por mim.

Raramente encontramos um casal de velhinhos babadeiros desfilando o amor verdadeiro na cara da sociedade. Por mais que sejamos uma comunidade guiada pela beleza e juventude, acho que a solidão é o carma do pequeno homossexual. E nem tudo tem haver com beleza ou dinheiro. Tem gays que morrerão sem desfrutar da verdadeira vida a dois, apesar de bonitos e com a conta cheia. Eu, por exemplo, sei que nunca vou empurrar uma carrinho de supermercado ao lado do “marido bem-sucedido”. Os poucos relacionamentos que eu tive foram marcados por traição, desconfiança e segredos. Larguei de mão. Aprendi a não condicionar a minha felicidade ao prazer de passear na avenida Paulista de mãos dadas. Não é pra mim. Hoje construo a felicidade em pequenas sensações, como uma garrafa de vodca, Internet decente e uma casa vazia, por pelo menos uma tarde. Ah, e uma garrafa de café fresco. Troco uma trepada por um café gostoso. Pode não ser a felicidade idealizada mas é felicidade.

 

Entretanto, entendo quem sinta a necessidade de uma vida normativa, afinal é o somos ensinados a esperar da vida. Mas é preciso não se iludir. Como disse anteriormente, pertencemos a um grupo muitas vezes fútil, preconceituoso e cruel. O jogo de aparências na comunidade gay é um fator que destrói relações que não têm a chance de nascerem. Você sonha com o “gay saradinho e fora do meio” mas quem vai te dar bola é o gordinho afeminado. Obviamente você vai se humilhar para conquistar o sarado – que come quinze pessoas como você apenas por interesse. Você não percebe que o gordinho tem um bom papo, certa cultura, um bom emprego e planos de vida viáveis.

Você prefere uma foda escondida com o “hétero” do que um encontro real com o cara negro.

Você detesta travestis, acha que todas as passivas devem ser apontadas e questionadas, acredita que o preconceito contra os gays é por causa das afeminadas e diz não levantar bandeira, mesmo sabendo que um conhecido seu foi espancado na semana passada. 

 

A solidão pode ser um carma, mas damos combustível para que o seu fogo aumente. 

 

Por favor, reveja um pouco os seus conceitos.

 

Pietro Damasceno