OTÁVIO, O PENÚLTIMO

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Nem lembro o dia exato, mas senti que foi um marco na minha vida, um divisor de águas, um ponto final. 

Estava em mais uma fraquíssima Macholokos do club Upgrade quando tomei a decisão. Em meio aos preservativos usados, viados dormindo em um canto e trepando em outros, tive o “vislumbre”: transar, pela última vez, com um garoto de programa. Nunca mais pagar por sexo, ao menos pelos próximos anos. Nem mesmo os trocados que sempre paguei. Nada. Finish!

Fui embora decidido e já tinha uma lista dos mais quentes michês de São Paulo para apimentar a minha “despedida”. Dessa vez, iria escolher um garoto por site, mais caros, porém mais belos e o  preço seria a última coisa que eu levaria em conta. Sempre evitei transar com michês fora de saunas, mas o medo era o ingrediente que deixaria a aventura mais excitante. Arriscaria!

Escolhi Otávio. Na verdade ele já estava escolhido e guardado na minha mente safada há anos e ressurgiu lentamente, apagando qualquer outro nome da minha lista.

O tesão já começou por telefone. Gostei da voz dele, da desenvoltura e da objetividade. Optei, para a fantasia ficar mais quente, por horário no meio do expediente, de um dia útil, quente e tumultuado. Enquanto recebia as instruções por sms para chegar ao apto, observava as pessoas caminhando, velhinhos atravessando a rua, crianças na praça e tive vontade de que todos soubesse que eu estava a minutos de foder intensamente, enquanto eles seguiam com suas vidas cotidianas e chatas. 

Ofegando, toquei a campainha do boy. Com tantos segredos e mensagens, tinha a sensação de que estava entrando em um cofre de banco, não em uma “casa dos prazeres”. Toquei novamente a campainha. Ouvi um “já vai” seguido por uma fungada de nariz. “Porra, justo hoje o puto está gripado?”, “Trepar com alguém de nariz escorrendo não é exatamente a foda que imaginei”. Segundos depois ele abriu a porta.

Analisei de baixo pra cima lentamente e me arrepiei. O michê era tão gostoso quanto as fotos mostravam. Produto sem avarias. Ele também pareceu surpreso ao me ver. Isso é comum, já que a maioria pensa que todos os clientes são feios ou decrépitos. A química foi instantânea quando nos cumprimentamos. Uma hora de pegação com aquele macho era tudo o que eu merecia nesse “the end”.

Outra fungada. Olhei nos olhos e logo percebi: não era gripe, alergia ou qualquer outra merda. O puto tinha acabado de cheirar. Sim, uns usam o azulzinho e outros preferem o pó da alegria. Daí, entendi que a surpresa dele ao ver foi pelo fato de ter desperdiçado o seu “Viagra”, já que o meu corpo era daria conta do recado e levantaria o amiguinho guardado na cueca.

Entrei no apê pequeno, mas fashion. Coisa de novela. Aparelhos de última geração, decoração gay e discreta, um cachorro mais gay ainda e sacolas da Lacoste espalhadas pelo chão. 

Conversamos qualquer bobeira enquanto tirávamos a roupa. Me joguei naquele corpo sensual enquanto ele escolhia as músicas para acompanhar a nossa foda. Beijos ardentes. Muito beijos, longos e demorados. É por isso que o cara é requisitado. Sabe iludir e criar a fantasia de que aquilo é real. Mais beijos, mais apertos e o boquete. Cada vez que enfiava fundo, o michê delirava mais. Eu pedia tapas na minha cara e ele retribuía metendo o pauzão com força na minha garganta. 

Chupei até perder o fôlego, até o meu queixo reclamar e pedi uma retribuição. Mais ao contrário do combinado ele se recusou. E o fez de uma forma seca e intimidadora, que apesar de frustante, me deixou ainda mais excitado. Logo em seguida ele me virou. Camisinha no cacete, lubrificante no meu cu e a dor. Rápida, mas quase insuportável. Mordi fronhas, travesseiros, o meu braço. Morderia também aquele cachorro afeminado, que olhava para mim com olhos tão piedosos. 

Dei como há uns bons meses não fazia. Aqueles braços grossos me segurando, aquela voz ordenando o que fazer, aquele lugar… Entrei em transe. Meu corpo gozou. Sim, meu corpo. A porra fico dentro de mim, mas todos os meus músculos se contraíram enquanto eu cavalgava na pica cada vez mais dura do sarado. O tesão dele por mim, aqueles olhos explodindo fúria, a força triplicada pela cocaína, foi demais para mim. Foi o ápice. Tudo estava perfeito. Tão perfeito que poderia morrer naquela hora, nunca mais transar, nunca mais chupar. Aceitaria sem protesto, conformado e exausto.

Após um breve descanso, com os corpos suados, trêmulos, podres de cansaço, partimos para o ato final.  Otávio elogiou a minha bunda. Não só com palavras, mas com as mãos grossas e a língua macia. Segundo ele, meu cu exalava tesão. “O cheiro do orgasmo”. Fui à loucura, amoleci, me entreguei. Ele penetrou de novo. E de novo, mais forte e mais rápido, mais forte, mais rápido, mais forte, mais rápido…

Gozei urrado, não como bicho, mas como um homem plenamente satisfeito por estar com outro sobre ele, dizendo os últimos palavrões sincronizados com os últimos esguichos de porra. Foi quase indescritível, quase insano. 

E a ilusão acabou ali. Ele não gozou, mas estava tão satisfeito quanto eu. Provavelmente foram os R$ 250,00 mais fáceis que ele ganhará naquele mês. Ou talvez naquele ano. Talvez na vida??? Não, não sou assim tão bom.

Ainda conversamos um pouco, mas fiz questão de não ultrapassar o limite do horário apesar da tranquilidade dele. O clima pedia algumas palavras de ambos, mas o meu orgulho me segurou. No caso dele, o profissionalismo foi a barreira para um adeus mais caloroso.

A tática funcionou. Fiquei um mês louco de desejo. Passava em frente ao prédio do michê, discava o número e desistia, entrava no site dezenas de vezes por dia e assim consegui me “desintoxicar”. Se o propósito era um gran finale, que assim fosse. Sem recaída. Sem humilhação.

Mas recaí. Não com Otávio. Mas recaí. Por isso ele é “o penúltimo”, mas ainda lembrado com o mesmo saudosismo e desejo do primeiro. 

Ainda não estou livre!

ps: Se você quer um rosto para Otávio, procure o sexto michê com o perfil mais acessado no site Malícia.