AMY E A MALDIÇÃO DAS DROGAS

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Filament.io 0 Flares ×

 

Ao contrário de vários, movi poucos músculos faciais quando assistir ao documentário Amy. O trabalho acompanha a vida da cantora, morta em 2011, desde a adolescência até a sua morte, que era aguardada com ansiedade pela imprensa mundial, visando vendas e mais vendas de jornais e revistas.

 

Não senti fortes emoções, não fui às lágrimas, porque tudo aquilo eu já vi (e senti) praticamente por a minha vida. Óbvio que, acompanhar a degradação de alguém talentoso não é agradável, mas querer transformar pessoas como Amy Winehouse em heróis, como a mídia desejava fazer, pra mim é um exagero.

 

 

Minha família, ou o que aprendi a chamar de família, foi destruída pelas drogas. Lícitas e ilícitas. Cresci com um pai alcoólatra. Porém, ele era aquele tipo de alcoólatra sem-vergonha, que trabalha normalmente de segunda a sexta e inferniza a vida dos outros no final de semana. Era assim. Perdi muitos almoços de sábado, muitas festas de aniversário, e passei muita vergonha com os “shows particulares” que o meu querido papai gostava de fazer quando tomava todas. Foi assim até 1998, quando a minha mãe cansou de dormir com facas sobre o travesseiro e decidiu dar um basta em tudo.

 

A vida perfeita, porém, durou pouco mais de 6 anos. Meu irmão mais novo “resolveu” se viciar em drogas aos 15 anos. Daí entra aquele clichê: não achei que isso aconteceria na minha família.

Mas, aconteceu.

 

Passei por todo processo que as famílias nessa situação passam: furtos em casa, promessas vazias, brigas e agressões.

Tive a infeliz idéia de assumir o lugar de “homem da casa” e só me fodi. Minha mãe nunca teve estrutura e sempre foi dominada pelo filho viciado e sociopata. Sim, meu irmão sempre foi ruim e dissimulado. A droga foi um “plus” no seu histórico de incômodos.

 

Fiz de tudo, ao meu alcance, para ajudar. Não adiantou porque pessoas assim só mudam quando querem. Esse papo de domínio pelo vício só é verdade em partes. 

 

Meu irmão foi preso em 2006. Um alívio para todos, acreditem! Antes disso, fomos obrigados a nos mudar às pressas, por causa das dívidas dele com traficantes, que batiam na nossa porta como os cobradores de serviços como água ou luz.

 

Ele ficou preso 1 ano e 5 meses e foi uma das épocas mais tranquilas para todos. Nunca o visitei na cadeia porque sempre senti que a verdadeira personalidade dele não havia mudado. Jamais passaria pela humilhação de visitar alguém na cadeia por alguém que não valia a pena. Minha intuição estava certa.

 

Quando saiu da cadeia, quando o olhei pela primeira vez, percebi no ato que o inferno iria recomeçar. Pensei em largar tudo e sumir, mas o meu coração de manteiga não permitiu que eu abandonasse quem era mais fraco do que eu. Foi um erro terrível. Todos os meus problemas de saúde, físicos e psicológicos, começaram a partir daí.

 

Meu irmão, como um chefe de facção, dominou tudo. Em uma semana, trouxe alguém que conheceu por aí, para morar em casa. Sempre com chantagens e ameaças. Decidiu “se casar” e viver como um sheik árabe.

Pouco pude fazer. E isso me adoeceu.

 

 

Três anos depois, no auge do vício, flagrei ele ameaçando a minha mãe por causa de dinheiro. Estava totalmente drogado. Nesse dia, meu irmão não imaginava que eu estaria em casa. Foi pego de surpresa, mas não se intimidou.

Tentou me ferir com a única coisa que depõe “contra” mim: a homossexualidade. 

 

Foi o limite. Agredi ele, de forma pesada, usando até uma panela de pressão que encontrei na cozinha. Ensinei a que “viado” bate tão bem quanto um bandido. Não nos falamos desde então. E nunca mais falaremos, porque as cicatrizes são profundas demais.

 

Ele parou com o vício quando o segundo filho nasceu. A mãe é usuária também. Coube a nós ajudarmos na criação. Continuei por perto. Agora por causa das crianças. Ele, continua sem caráter, porém, não usa mais nada ilícito. Mas, se entrega aos prazeres do álcool, sempre culpando alguém, é claro. É a desculpa de todo viciado.

 

Eu, após anos nessa situação, não sou mais o mesmo. Agora, tento ajudar os meus sobrinhos, que têm pais péssimos, egoístas e sem nenhuma empatia com crianças. Talvez, seja essa a minha missão! Vai saber!

 

 

 

 

Quanto ao documentário, percebo que a imprensa e os fãs tentam transformar Amy Winehouse em um mito. Talvez consigam. Ela morreu por suas escolhas, falta de estrutura familiar, mas não por uma causa, como milhares de anônimos morrem pelo mundo todos os dias. 

 

A história dela pode inspirar, para o bem ou para o mal.

Infelizmente!

 

Mas, indico a todos.

No dia 27 de fevereiro, o canal Multishow exibirá o documentário, que já está disponível na Netflix e nos melhores sites piratas. “Amy” também foi indicado ao Oscar 2016 na categoria.

Vale a pena assistir!

 

3 thoughts on “AMY E A MALDIÇÃO DAS DROGAS

  1. O documentário é maravilhoso! Mostra todo o talento e genialidade de Amy Winehouse. As letras de suas canções vinham do coração. Amy era apenas uma mulher que queria ser amada, e que em certa altura precisava de ajuda. A ajuda nunca veio. Quantas vezes apaludi Amy Winehouse quando a via caindo no palco… Achava ela o máximo… Depois de assistir o filme me senti péssimo. Ela estava definhando, e sendo devorada pela imprensa …. E o pai? Não fez nada para ajudar! Família totalmente sem suporte. Ela morreu por suas escolhas, porém em minha opinião é sim um mito por sua musicalidade. Vale a pena assistir! Beijos Pietro!

  2. Também tenho um irmão problema e viví os mesmos episódios, a agressividade, a chantagem emocional. Meu irmão resolveu usar o irmão gay como justificativa para ele ser um merda, só que culpa é uma carapuça que só veste quem quer e eu me recusei a colocar essa. Paguei obviamente um preço, minha família se separou de mim por causa dele, é muito complicado ver um verme dando as cartas pra toda família. Há quase dez anos decidí não ter qualquer tipo de relação com ele, é uma pessoa daninha, não muda, não evolui. Melhor que cada um viva em seu canto do que insistir numa relação desgastante, ficar golpeando ponta de faca pro resto da vida em nome de uma relação de irmandade ilusória.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *